​Estudante de Neuropsicologia realiza mobilidade Erasmus+ na Suécia e investiga impacto neurológico do COVID Longo

Quinta-feira, abril 16, 2026 - 14:56
A internacionalização continua a afirmar-se como um dos pilares fundamentais da formação académica na Universidade Católica Portuguesa, proporcionando aos estudantes experiências transformadoras tanto a nível científico como pessoal. Um exemplo disso é o percurso de Ana Patrícia Rosário Dias, estudante do 2.º ano do Mestrado em Neuropsicologia, que realizou uma mobilidade Erasmus+ na prestigiada Uppsala Universitet, na Suécia.

Entre setembro de 2025 e março de 2026, Ana Patrícia integrou o Department of Chemistry – Biomedical Center (BMC), onde desenvolveu o seu projeto de dissertação sob orientação do Professor Jonas Bergquist, um reconhecido investigador na área. Esta experiência não só contribuiu para o avanço do seu trabalho científico, como também lhe permitiu contactar com novas abordagens académicas e culturais, reforçando a sua motivação para prosseguir estudos doutorais em contexto internacional.

O seu projeto centrou-se no estudo da neuroinflamação associada ao COVID Longo e o seu impacto na neurocognição — uma área emergente e de grande relevância na investigação atual. A escolha do tema teve uma forte componente pessoal, refletindo a preocupação com a falta de reconhecimento e compreensão destas condições na comunidade científica e na sociedade.

Ao longo da sua estadia, a estudante teve ainda a oportunidade de participar em eventos científicos de elevado prestígio, incluindo as “Nobel Laureate Lectures”, bem como de integrar uma comunidade académica dinâmica e altamente colaborativa.

A experiência de Ana Patrícia Rosário Dias demonstra o impacto profundo que uma mobilidade internacional pode ter no percurso académico e pessoal de um estudante. Para além do desenvolvimento científico, estas oportunidades promovem autonomia, resiliência e uma visão global da investigação.

Num contexto em que a ciência exige cada vez mais colaboração internacional e abordagens multidisciplinares, experiências como esta reforçam o papel da mobilidade Erasmus+ como motor de inovação, conhecimento e crescimento humano.

Segue-se a entrevista onde partilha, na primeira pessoa, a sua experiência:
 
ana patricia dias
• Como foi acolhida na Uppsala Universitet e o que achou do campus e das instalações:

A receção não podia ter sido melhor. Cheguei a Uppsala, na Suécia, sem conhecer ninguém, mas o Professor Doutor Jonas Bergquist fez-me sentir imediatamente em casa, tratando-me não apenas como uma estudante, mas como um membro da equipa. Desde o início, fui apresentada às instalações e à equipa, que sempre se mostraram disponíveis para me ajudar com o que fosse necessário, seja em questões administrativas para me integrar na universidade ou nos processos burocráticos para viver na Suécia. O acolhimento da universidade e da equipa foi excecional, e hoje levo comigo as amizades que fiz.

Relativamente ao campus, estudei no Biomedical Center (BMC), da Uppsala Universitet (a mais antiga da Escandinávia, fundada em 1477), e posso dizer que as condições são incríveis. O BMC é um lugar que dá gosto estar, com laboratórios super modernos e infraestruturas sustentáveis que realmente fazem a diferença no dia-a-dia. As salas de aula são novas e cheias de tecnologia, as bibliotecas estão sempre bem equipadas, e o ambiente em si é super agradável. Não só o campus é lindo, com muitos espaços verdes, mas também é um local que convida ao estudo, ao aprofundamento de conhecimentos e ao crescimento pessoal. Senti que tinha tudo o que precisava para me sentir confortável e motivada a aprender.

• Equipa de docentes e investigadores com os quais teve oportunidade de trabalhar em mobilidade

Tive a oportunidade de trabalhar com a equipa do Professor Doutor Jonas Bergquist, no Departamento de Química para Ciências da Vida, Química Analítica. A equipa era composta por cinco pessoas, incluindo o próprio Professor Jonas. No entanto, dentro das instalações do BMC, tivemos também a oportunidade de conhecer muitos outros profissionais e equipas de investigação, que estavam sempre dispostos a partilhar conhecimento e colaborar. Para além disso, também tive a oportunidade de trabalhar com alguns dados em colaboração com a Dra. Serena Fineschi, Investigadora Associada no Departamento de Ciências da Saúde Pública e Cuidados, na área de Medicina Geral. Foi uma experiência enriquecedora poder interagir com profissionais e investigadores de diferentes áreas.

• Relativamente ao seu estágio, por favor, fale-nos um pouco acerca do seu trabalho ao longo dos últimos meses.

O meu trabalho principal consistiu no desenvolvimento do projeto de dissertação intitulado "The Study of Neuroinflammation in Long COVID and its Impact on Neurocognition", centrado no estudo da condição COVID Longo, em que os pacientes continuam a apresentar sintomas persistentes após a recuperação da fase aguda da infeção por SARS-CoV-2. Esta condição envolve diversos sintomas debilitantes, incluindo dificuldades cognitivas, fadiga extrema e problemas respiratórios, que afetam significativamente a qualidade de vida.

Estudar os mecanismos subjacentes ao COVID Longo é fundamental para compreender de que forma a inflamação impacta a neurocognição, contribuindo para o desenvolvimento de intervenções direcionadas que promovam a recuperação e a melhoria da qualidade de vida desta população.

Porquê a Suécia e porquê este tema para a minha dissertação? A decisão de abordar este tema começou com uma experiência pessoal. Uma grande amiga foi diagnosticada com o vírus Epstein-Barr (mononucleose) e, meses depois, com o SARS-CoV-2 (COVID-19). Com apenas 23 anos, viu-se completamente debilitada, com meses de cama e diversos sintomas cognitivos. Foi então diagnosticada com encefalomielite miálgica, uma condição com muitos pontos em comum com o COVID Longo, pois ambos apresentam sintomas semelhantes. À medida que me aprofundava na pesquisa para a ajudar, percebia que não havia estudos suficientes que ligassem essas condições à cognição. Além disso, notei que muitos dos pacientes se sentiam desvalorizados, pois, mais uma vez, a condição era associada à parte psicológica e não era reconhecida como "real". Foi assim que decidi escrever a minha dissertação sobre este tema.

Mas porquê a Suécia? Ao iniciar a minha pesquisa, deparei-me com artigos do Professor Dr. Jonas Bergquist e da sua equipa, que me despertaram muito interesse. Mais tarde, tive a oportunidade de assistir a uma conferência onde o professor apresentou o tema "Metabolic Profiling of ME Patients under Mild Exertion during Home Visits", abordando também as consequências cognitivas pós-infeção. Esse momento foi decisivo, e decidi contactar o professor para saber se teria dados cognitivos disponíveis e se poderíamos colaborar no desenvolvimento da minha dissertação. Agradeço imensamente o voto de confiança do Professor Dr. Jonas Bergquist, que, mesmo sem me conhecer, me acolheu de forma calorosa e foi absolutamente excecional durante todo o programa.

Espero que, num futuro próximo, os pacientes com COVID longo e Encefalomielite Miálgica sejam mais valorizados. Acredito que uma abordagem mais holística e integrada, que considere todos os aspetos da saúde física, mental e emocional, seja essencial para o tratamento e apoio a estas pessoas. A minha esperança é que, com mais investigação e consciência, possamos encontrar soluções e, finalmente, melhorias significativas na vida destes pacientes.

• Em que sentido é que esta mobilidade na sua área de especialização a irá enquanto estudante de Doutoramento?

Sem dúvida que esta mobilidade me permitiu conhecer outras realidades e mudou a minha perspetiva sobre a possibilidade de seguir um doutoramento em breve. Nos países nórdicos, as vagas de doutoramento são tratadas como vagas de trabalho, ou seja, passamos de estudantes a profissionais na área, enquanto obtemos mais um grau académico. São quatro anos em que trabalhamos em equipas bem estruturadas, com condições excelentes, e com a dignidade necessária para desempenharmos as nossas funções e, ao mesmo tempo, mantermos uma vida pessoal equilibrada.
Desta forma, tenho cada vez mais a certeza de que gostaria de realizar o meu doutoramento numa destas regiões, na minha área de especialização, para aprofundar os meus conhecimentos e, ao mesmo tempo, partilhá-los com outros profissionais.

• Eventos universitários a que tenha assistido ou nos quais tenha participado durante a mobilidade;

Uma das maiores oportunidades que tive foi o privilégio único de assistir às “Nobel Laureate Lectures”. No dia 13 de dezembro de 2025, a Universidade de Uppsala acolheu os Laureados com o Prémio Nobel nas áreas de Fisiologia ou Medicina, Química e Economia, para palestras públicas. Esta tradição anual, que ocorre logo após as cerimónias do Prémio Nobel em Estocolmo, proporcionou-me uma experiência inspiradora, permitindo-me interagir com mentes científicas de topo e conectar-me com a comunidade académica de Uppsala.
Além disso, também tive a oportunidade de assistir a uma grande defesa de tese de doutoramento de um orientando do Professor Jonas, o que, sem dúvida, foi um marco na carreira deste profissional e uma experiência académica muito enriquecedora para mim.

• Outros tópicos que queria referir (vida universitária, país, cultura, etc.).

A vida universitária em Uppsala é, sem dúvida, o que dá vida à cidade. Uppsala é uma cidade universitária, com uma enorme energia estudantil e uma grande variedade de atividades gratuitas para os estudantes.

A cidade é marcada pelas nações, que desempenham um papel essencial na vida estudantil em Uppsala. Com 13 nações (cujas designações correspondem a cidades suecas), a vida universitária aqui é verdadeiramente única. Fundadas no século XVII, as nações funcionam como uma segunda casa para os estudantes, oferecendo uma vasta gama de atividades. Podemos estudar, almoçar, conviver, relaxar nos pubs e discotecas das nações e até assistir a jogos de hóquei, entre muitas outras iniciativas. Ao sermos membros, temos acesso a uma enorme variedade de atividades culturais e sociais. Além disso, temos a oportunidade de trabalhar nas nações e até arrendar as suas residências.

Mesmo fora das nações, estão sempre a decorrer atividades organizadas (algumas gratuitas). É um país que valoriza bastante a natureza, a atividade física e a saúde mental e, por isso, tem espaços verdes muito bem desenvolvidos e adaptados (florestas com zonas específicas para organizar piqueniques e convívios), para que as pessoas se mantenham ativas e consigam ultrapassar o inverno da melhor forma possível. Por exemplo, numa destas atividades organizadas, tive a oportunidade de participar numa caminhada guiada por professores de Biologia pela floresta, onde aprendi imenso sobre cogumelos, uma verdadeira tradição sueca, especialmente a caça ao cantarelle.

Do ponto de vista do país e da cultura, os suecos são conhecidos pela sua organização. Têm ótimas instalações, serviços de transportes eficientes e bons acessos, o que torna a vida mais prática e conveniente. A habitação é boa, e, apesar do tempo frio, é um país com uma excelente qualidade de vida. Além disso, as pessoas são prestáveis e cordiais, o que facilita a integração na cultura local.

Termino por dizer que a experiência de escrever a minha dissertação na Suécia foi uma das mais enriquecedoras da minha vida. Tive a oportunidade de conhecer e imergir em diferentes culturas, o que me permitiu perceber a minha capacidade de adaptação a novos desafios. Ir para um país desconhecido, sem conhecer ninguém, e sair de lá com a sensação de que se tornou uma segunda casa, é algo verdadeiramente fascinante. Essa vivência despertou em mim a coragem de arriscar e a capacidade de lidar com situações inesperadas no futuro. No plano académico, foi uma verdadeira inspiração trabalhar com uma equipa de uma área completamente distinta da minha, que me acolheu de forma exemplar. Uma experiência internacional ensina-nos a adaptar-nos e a descobrir novos métodos de trabalho, algo que, sem dúvida, nos torna melhores profissionais e pessoas.
Uma experiência que ultrapassa fronteiras
 
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